Com a mão no defunto, gritava: Jair, Jair, ela é boa demais, Jair!!!
- caiobrandao90
- 3 de set. de 2022
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O restaurante era ponto de encontro de velhos amigos. Era, porque vários passaram para o outro plano, onde se encontram em busca do apoio de pistolões espirituais, articulando o manejo de reencarnações futuras. Estávamos, restrito grupo, no “Chez Bastião”, quando se achegou o jovem Gustavo Bracher e Silva, também conhecido como “Alemão”, expressivo talento das cordas, doutor e mestre em performance musical, cujo sobrenome, por si só, acena com perspectiva de sucesso. Gustavo trajava camiseta de cor preta e nela vários nomes impressos, em letras brancas e destacadas. Levantei-me, cumprimentei o filho de velho amigo e perguntei-lhe: Gustavo, o que eu preciso fazer para ter o meu nome constando dessa plêiade, que habita a sua camiseta? Ele respondeu: “é muito simples. Contudo, melhor você esperar mais alguns anos, emendou”. Indaguei o motivo e Gustavo deu o tom: “os nomes escritos nesta malha são de velhos amigos, uma singela e sincera homenagem, que presto a estimados companheiros e a algumas notórias personalidades, todos falecidos”. “Esta tela está à sua disposição, mas não se apresse, disse, enquanto estalava os dedos e apontava o indicador para a mesa, alertando o garçom, que nos atendia.
A alegórica exaltação à morte fez emergir, nos meus pensamentos, a figura do Marcos Alcântara, o Marcão, egresso da política de Montes Claros, no norte de Minas, que trabalhou, como meu assessor, na Fundação Ruralminas, no governo Itamar Franco. Marcão, paciente terminal vitimado por câncer agressivo nos intestinos, comentou por e-mail: “tenho lembrado muito do poema do seu pai e às vezes penso que você poderia me ajudar a formatar um epitáfio para a minha lápide. Pensamentos fúnebres, mas infelizmente realistas, pois, a situação atual me coloca na posição de paciente terminal, o que não me assusta. Estou começando um período de quimioterapia, mas o processo de definhamento é terrível e a minha vontade de antecipar os fatos é muito grande”, completou, dentre outras considerações de ácido pragmatismo.
O Marcão pragmático ficava em boa companhia na minha presença, pois, costumo exacerbar a toxidade dessa condição. Mas, o pedido de sugestão de epitáfio foi inusitado no meu compêndio de elucubrações funéreas, e respondi a sua mensagem na forma abaixo: “Estimado Alcântara, querido amigo Marcão. Resolvi pautar esta visita com solenidade, daí o tratamento de Alcântara, permita-me fazê-lo, em face do caráter de que ela se reveste. Tive notícias suas através do nosso amigo comum, Tico, que trouxe, com desconforto, breve relato sobre o seu estado de saúde. O Relato foi sucinto, mas suficiente para despertar alerta vermelho, que ensejou a minha mensagem anterior. A sua resposta não poderia ter sido melhor. Partiu do “velho” e irreverente Marcão, que sempre admirei. Consciente do estado terminal, em que se encontra, não titubeou em postar-se com elegância e pronto para o combate. Combate inglório, certamente, em face de nem sequer armado você estar, haja vista o adversário imbatível, que se alinha ao sopé da cama. Do leito você poderá avistar tempos idos, memórias, recordações e reminiscências várias, que lhe fartarão de lágrimas os olhos ávidos pelo descortino de dias melhores, neste ou em qualquer outro plano. Venha o que vier, conforme o seu relato, você estará no lucro. Estimado amigo, o que é a morte, afinal? Quem é esta vetusta senhora, que empunha o bastão do imponderável, empana os nossos sonhos, esmorece os nossos ideais e assombra os dias de nós outros pela eventualidade da sua ocorrência, seja na forma, seja no tempo? A morte não ceifa, Marcão, mas apenas acolhe. Não é amiga, mas pode ser amigável. É mensageira, que chega quando tem que chegar e, nada além disso. Pode vir como um sopro, leve e quase imperceptível brisa, que vagueia pelo quarto, como também pode surgir na forma de sussurro, quase inaudível, mas capaz de fazer eclodir os mais recônditos e inauditos pressentimentos. Pode vir com a dor, e por que não? A dor é adereço, que emoldura os últimos momentos, algo que amolga, e que devemos suportar com resignação; é apenas estímulo alusivo ao corpo, que esmorece, mediante espasmos, e prepara mente e espírito para saltos mais arrojados. O corpo, rebelde, não se conforma com o chamado. Enfim, Marcão, tudo é passageiro, e para você, agora, por rigorosamente relevante, a única coisa que tem algum valor é a desimportância da importância. Se possível, guarde com carinho o afeto dos amigos, que vai deixar por aqui, mas, que também seguem toada na mesma direção que você, porque o arremate se trata, apenas, de mera questão de tempo. Até lá! “
Marcão faleceu quarenta dias depois da nossa interlocução.
Mas, como existem mortes e mortes, “cada uma, como cada qual”, em Visconde do Rio Branco, em Minas, o caixão estava apoiado nas extremidades, sobre duas cadeiras, no centro da sala da casa da Tia Carmita, que chorava convulsivamente, gesticulava movimentos desconexos e clamava: “não me conformo, sou a única viúva da família!!!”. Jair de Castro, grande figura humana, havia tido enfarto fulminante e deixado dezenas, senão centenas de amigos, dentre eles e especialmente, o vice-governador Celso Porfírio Machado, que secundava Rondon Pacheco no poder Executivo. Era indivíduo formidável, educado e sobretudo elegante, particularmente no trajar. No entorno do caixão, permeado por cadeiras colocadas em círculo, ao lado umas das outras e de pessoas que também se postavam de pé, a reza corria solta e animada, como convém a velório católico tradicional. Dado momento adentrou o recinto o bêbado da cidade. Aquele pinguço chato cambaleante, de boa família, com baixa instrução, mas inofensivo e querido por todos. O bebum se ajoelhou diante do caixão, segurou a mão do defunto e declinou ladainha lamuriosa, entre lágrimas e voz embargada. Do outro lado, na linha de visada do borracho, a bela e milionária Rosa Maria, dona de usina de açúcar e esposa do então deputado federal Mário Bouchardet. O encachaçado chorava, se lamentava, mas olhava direto para as coxas da Rosa, que reluziam exuberantes e viçosas, apesar de rigorosamente juntas, no espaço fronteiriço entre os seus joelhos e o vestido de modelo escuro e circunspecto. O bêbado, que exaltava a saudade do amigo e as virtudes do companheiro que jazia, não resistiu e gritou: Jair, Jair, ela é boa demais, Jair !!!!
PS:
ESTA CRÔNICA ENCERRA A PRIMEIRA TEMPORADA DOS MEUS ESCRITOS, COMO PRELIMINAR DE LIVRO, QUE DEVERÁ TRAZER OUTRAS TANTAS, AINDA INÉDITAS. SEI QUE VIVI MUITAS VIDAS NESTA VIDA, MAS AINDA NÃO FOI O BASTANTE.
Espetacular Dr. Caio! Tem q continuar! Cronicas inéditas q nos "prende" na leitura. Parabéns!
A vida nunca nos basta, seja ela repleta de aventuras como as suas ou não....
Ansioso pelo livro que se avizinha e por mais contos e crônicas impagáveis !!!!
Parabéns Caio!
Visconde do Rio Branco Ubá
Saudade das idas e vindas
Mauro Albino boas farras
Belas lembranças Caio
Forte abraço amigo